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Segunda-feira, 17 de Agosto 2026
Brasil

Vírus mortal também provocou negacionismo e críticas a quarentenas no Brasil Império

Febre amarela chegou em 1849 Políticos negaram a gravidade

Portal Correio do Agreste
Por Portal Correio do Agreste
Vírus mortal também provocou negacionismo e críticas a quarentenas no Brasil Império
Porto do Rio de Janeiro no fim do século 19: infectados pela doença chegavam do exterior a bordo de navios
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Na virada de 1849 para 1850, a tranquilidade que o Brasil vivia sob o reinado de Dom Pedro II foi abalada pela chegada de 1 vírus devastador. Velho conhecido no exterior, mas novidade no país, o patógeno da febre amarela pegou o governo imperial de surpresa e avançou sem piedade sobre as grandes cidades do litoral, causando pânico e morte.

Documentos históricos guardados no Arquivo do Senado, em Brasília, mostram que, apesar da destruição que a doença produzia no Império, houve políticos que negaram a realidade e tentaram minimizar a gravidade da epidemia.

Num discurso em abril de 1850, no Palácio Conde dos Arcos, sede do Senado, no Rio de Janeiro, o senador e ex-ministro Bernardo Pereira de Vasconcellos afirmou que a doença não era tão perigosa e chegou a pôr em dúvida se seria mesmo a temida febre amarela:

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“Estou convencido de que se tem apoderado da população do Rio de Janeiro 1 terror demasiado e que a epidemia não é tão danosa como se têm persuadido muitos. Talvez fosse mais conveniente que o governo não tivesse criado lazaretos [hospitais de isolamento] e feito tanto escarcéu. Julgo até necessário que se institua exame público a esse respeito, a fim de mostrar ao Brasil e ao mundo que não é a febre amarela o que reina hoje.”

Apenas duas semanas depois de fazer esse discurso, o senador Vasconcellos morreu de febre amarela.

Ele não foi a única vítima da doença no Palácio Conde dos Arcos. Em apenas 2 meses, o Senado perdeu 4 parlamentares: além de Vasconcellos, foram levados pela febre amarela os senadores Visconde de Macaé, Manoel Antônio Galvão e José Thomaz Nabuco de Araújo, avô do abolicionista Joaquim Nabuco.

Mesmo com essas mortes, os negacionistas do Senado não se renderam facilmente à realidade.

“Eu tenho algumas 22 pessoas na minha casa e não tive uma única delas doente”, afirmou o senador Costa Ferreira (MA), referindo-se a familiares e escravos. “Infelizmente eu, na epidemia reinante, tive de ordenar 2 enterros. Gostaria de me esquecer de todas as penas que então sofri”, reagiu o senador Visconde de Abrantes.

“Se está tão apaixonado pelos 2 defuntos que enterrou, então não está em estado de deliberar aqui no Senado”, provocou, entre risadas, o senador Alves Branco.

O senador Limpo de Abreu disse que aquela doença provavelmente não era a febre amarela porque a mortalidade no Brasil, a seu ver, estava pequena demais em comparação com o que se via no exterior:

“Em Múrcia [Espanha], onde se declarou [epidemia] em 1804, de 134 pessoas que foram atacadas no princípio da invasão, apenas escaparam 3 ou 4. Em Barcelona, em 1821, de 20 pessoas afetadas, escapava apenas uma. Em Gibraltar, em 1828, a mortalidade andou na mesma proporção. Aqui tenho estatísticas do Rio de Janeiro. Na enfermaria da Rua da Misericórdia, a mortalidade é de 18%. No lazareto estabelecido na Gamboa, pouco excede de 5%. A moléstia não é tão grave como se tem divulgado. Não se justificam o terror e o pânico da população. Se a epidemia que se desenvolve em nosso país é em verdade o que se chama febre amarela, então o Senado há de permitir que eu diga que todos devemos dar graças a Deus por ter mandado, na sua cólera contra os nossos pecados, castigo tão benigno”, disse.

Os números consolidados mostram que, ao contrário, a febre amarela não teve nada de benigna quando chegou ao Brasil. Apenas no Rio de Janeiro, capital de 200 mil habitantes à época, 4 mil pessoas morreram em poucos meses na epidemia de 1849 até 1850. Transportando essa proporção para a atualidade, quando a cidade se aproxima dos 7 milhões de habitantes, é como se a doença hoje tirasse a vida de 130 mil cariocas.

Foi por causa dessa crise que o Brasil mudou 1 antigo costume. Em 1850, uma lei proibiu as sepulturas dentro e ao redor das igrejas e exigiu que os novos cemitérios fossem abertos longe do centro das cidades. A preocupação era evitar a infecção dos fiéis e dos vizinhos das igrejas.

Até então, excetuando-se alguma aparição episódica nos tempos da Colônia, o Brasil era 1 país livre da febre amarela. O vírus chegou antes a Salvador, em setembro de 1849, a bordo de 1 navio de bandeira norte-americana que fizera escala em ilhas infectadas do Caribe.

A partir de Salvador, a doença se espalhou pela costa brasileira. Na capital do Império, os primeiros registros se deram em dezembro. Com variável intensidade, a febre amarela provocaria mortes no Brasil praticamente a cada verão pelos 60 anos seguintes.

Os negacionistas, apesar de barulhentos, não conseguiram prevalecer. Desde a 1ª epidemia, o governo entendeu a gravidade da situação e ofereceu às populações atingidas os chamados socorros públicos. Isto é: hospitais de isolamento, enfermarias, médicos, remédios e alimentos. O Senado e a Câmara sempre aprovaram a liberação das verbas necessárias. Em abril de 1850, por exemplo, o montante aprovado somou 100 contos de réis.

Pedro II manifestava publicamente preocupação com as epidemias. O imperador visitou hospitais de isolamento, levando consolo aos doentes, e mencionou a febre amarela em diversas falas do trono, discursos que ele proferia todo ano ao abrir e encerrar os trabalhos do Senado e da Câmara.

“Os estragos da enfermidade afligem profundamente meu coração. O meu governo tem empregado todos os meios ao seu alcance para acudir os enfermos necessitados”, disse em discurso, em maio de 1850. “Graças a Deus, vai diminuindo o mal. Espero de sua divina misericórdia que, ouvindo nossas preces, arrede para sempre do Brasil semelhante flagelo.”

Assim como a febre amarela, foram com frequência citadas nas falas do trono a cólera e a varíola. As 3 moléstias representaram o grande gargalo sanitário do Império.

Todo fim de ano, Pedro II e a elite imperial se mudavam provisoriamente do Rio de Janeiro para Petrópolis, que se transformava numa espécie de capital de verão. No clima fresco da serra fluminense, ficavam a salvo das epidemias que brotavam na quentura úmida da Baía de Guanabara.

No século 19, não existia no Brasil uma rede pública de saúde. As pessoas com posses se tratavam em casa, com médicos particulares. Os pobres, por sua vez, recorriam a instituições de caridade, como as santas casas de misericórdia. Assim que uma das tantas epidemias de febre amarela se instalava no Rio de Janeiro, o governo destinava recursos financeiros extras à Santa Casa, que corria para abrir enfermarias temporárias pela capital, semelhantes aos atuais hospitais de campanha.

Houve senadores incomodados com a estratégia. Um deles foi Leitão da Cunha, que se queixou da instalação de uma enfermaria para os desvalidos em Laranjeiras, bairro nobre do Rio de Janeiro.

“Há bairros inteiros da cidade onde não se tem manifestado 1 caso sequer da epidemia reinante. Entre eles, o das Laranjeiras. Pois foi montada uma enfermaria à Rua das Laranjeiras. Deslocar as providências dos bairros afetados da epidemia para ir, por assim dizer, enxertá-las onde ela não existe é realmente uma ideia que é extravagante e não tem justificação. Ninguém creia que em mim atua medo, receio ou falta de humanidade para com os infelizes afetados pela doença. Estou convencido, como todos estarão, de que é mais conveniente que sejam tratados nos lugares em que adquirirem a moléstia.”

O senador Visconde de Olinda discordou quando o colega Costa Ferreira argumentou que os pobres infectados precisavam, sim, ser tratados à custa do dinheiro público.

“Como particular, concorrerei para que se façam dessas obras de caridade”, disse o Visconde de Olinda. “Mas, como homem público, rejeito essa doutrina do nobre senador, que aproxima-se 1 pouco do socialismo. É 1 dos pontos do socialismo sustentar os pobres, e o nobre senador, sem querer, vai cair nesse erro.”

“A discussão foi tão longe que até se me deu a patente de socialista. Não me falta mais nada. Já posso morrer. No fim da minha vida, sou socialista e sem eu o saber”, respondeu, gargalhando, Costa Ferreira. “E por quê? Porque advogo a causa dos pobres moribundos. Se eu advogasse a causa de vadios, se pedisse socorro para homens sãos, então, sim, poderia ser tachado de socialista. Mas advogar a causa de desgraçados que se acham no leito da morte e expostos a morrer por falta de meios de tratamento será tudo quanto se quiser, menos socialismo.”

 

 

Nesse momento de emergência sanitária, o governo do Império montou as primeiras repartições do Brasil dedicadas a cuidar da saúde pública de uma forma mais abrangente. A pioneira, em 1850, foi a Junta de Higiene Pública, subordinada ao Ministério do Império (equivalente hoje ao Ministério da Justiça).

Na avaliação do senador Holanda Cavalcanti (PE), o comando da Junta de Higiene Pública e o combate às epidemias deveriam ser retirados das mãos dos médicos:

“Higiene pública, empregados de visitas de saúde dos portos, lazaretos, instituto vacínico… Senhores, em tudo está o médico. Não havia antigamente essa necessidade. Parece-me que há muito desperdício de dinheiro com tantos médicos acumulando empregos e fazendo fortuna. O interesse dos médicos é que haja doentes, e não que fiquem bons. Riem-se os nobres senadores? Os médicos vivem das moléstias, não da saúde. O objeto é mais sério do que se supõe. Senhores, as sociedades filantrópicas são as verdadeiras para esses fins.”

FONTE/CRÉDITOS: poder 360

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