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Segunda-feira, 17 de Agosto 2026
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‘kit para engravidar’ proibido se espalha nas redes e é investigado no Brasil

Como medicamento que auxilia na fertilidade, ele precisaria ter um registro da Anvisa comprovando

Portal Correio do Agreste
Por Portal Correio do Agreste
‘kit para engravidar’ proibido se espalha nas redes e é investigado no Brasil
Foto/Reprodução
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Como medicamento que auxilia na fertilidade, ele precisaria ter um registro da Anvisa comprovando tal benefício, com sua segurança e qualidade atestadas.

“Meninas, o que vocês estão fazendo para conseguir o positivo?”, pergunta *Ana em uma rede social.

Ela tem 36 anos, tenta engravidar desde 2016 e, no Instagram, descobriu e comprou o que vários perfis diziam ser infalível: um kit para engravidar, com maca peruana.

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De um deles, a brasileira recebe a seguinte mensagem, atribuída a uma mulher que teria finalmente engravidado após 10 anos de tentativas frustradas: “Tenho que agradecer a Deus e a Maca Peruana por ser uma luz em nossas vidas! Tive meu positivo no primeiro teste depois de tomar. Um único embrião e hoje tenho meu Vitor nos Braços (sic)”, diz o “print” do depoimento que a reportagem da BBC News Brasil identificou como falso, ao lado de outros indícios de irregularidades na venda e promoção de um produto que se espalha no País com a ajuda das redes sociais.

Nos Estados Unidos, maior importador mundial de maca em pó, em farinha e em sêmola, a Food and Drug Administration (FDA)- agência do Departamento de Saúde do governo – encontrou Viagra escondido em uma das marcas, com riscos para pessoas com diabetes, pressão alta, colesterol alto e doenças cardíacas. E orienta, desde junho, os consumidores a não usarem o produto.

A maca peruana é uma raiz cultivada e exportada principalmente pelo Peru.

É produzida a mais de 4 mil metros de altitude, nos Andes, e promovida oficialmente pelo país como “superalimento” que “ganhou o mundo”.

Não só isso. “Ela oferece múltiplos benefícios à saúde de quem consome, devido ao seu alto valor nutritivo e medicinal”, diz um material promocional enviado à BBC News Brasil pela Promperú, órgão vinculado ao governo peruano que promove produtos locais.

O texto diz que o consumo da raiz “é associado a melhorias de pressão alta, depressão, ansiedade e, ‘de um jeito ainda não totalmente entendido’, também ao equilíbrio de hormônios”. A propaganda oficial não faz referência aos supostos benefícios à fertilidade.

O Brasil, que há 10 anos aparecia em 20º lugar entre os maiores compradores da maca em pó, farinha e sêmola, passou à segunda posição, atrás apenas dos Estados Unidos.

As importações em 2018 somaram US$ 862 mil (R$ 3,22 milhões) e um volume de 280.420 kg – com alta de 62% sobre 2017.

‘Energizante’

Mas o que está por trás desse avanço?

Para exportadores, seria o poder “energizante” da planta, aliado a uma demanda crescente por produtos naturais.

Mas é prometendo bem mais do que isso que cápsulas supostamente recheadas com esse pó se espalham, vendidas no Brasil como “supermedicamentos” para “engravidar rápido” e combater a infertilidade.

“São muitas positividades, que fazem você crescer o olho e criar esperança”, diz *Ana.

Ela teve as chances de engravidar reduzidas porque anos atrás fez uma cirurgia de ligação de trompas.

“Fui mãe muito nova, tive quatro filhos e já me sentia completa. Não queria mais engravidar”, diz à BBC News Brasil.

“Mas aí me casei de novo, meu marido não tem filhos e eu decidi fazer a operação para ‘desligar'”.

“A médica disse que eu posso engravidar, mas até agora não consegui e resolvi comprar a maca para ver se me ajuda nisso”.

Investigação

A BBC News Brasil mergulhou durante um mês nos meandros desse negócio.

A reportagem verificou um estímulo ao consumo através de propaganda enganosa e sem comprovação científica que enaltece os poderes de aumentar a fertilidade, e incrementar a libido. Os produtos são oferecidos online a preços que variam de R$ 97 a R$ 2 mil.

A BBC News Brasil encontrou também outros indícios de irregularidades: depoimentos forjados de supostos consumidores satisfeitos, como o da mulher citada no início desta reportagem, uso indevido de registros farmacêuticos e venda irregular de tratamentos.

Os sinais foram identificados em perfis no Instagram, Facebook e YouTube, que remetem a lojas online, contrariando regras das próprias plataformas.

Nas redes sociais, conteúdos recheados de propagandas para vendas não autorizadas se multiplicam, chegam a ser visualizados por milhões de pessoas e levam parte delas, como *Ana, a comprarem – e consumirem – o que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) chama de “produto clandestino”.

A Anvisa afirmou à BBC News Brasil que vai abrir “investigação para averiguar possíveis irregularidades”.

O Facebook e o Instagram disseram, após contato da reportagem, que estão investigando o caso e que removerão conteúdos que violem as políticas das plataformas.

Ajuda a engravidar?

Segundo a presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH), Nilka Donadio, a maca não é indicada “nem como ajudinha, nem como medicamento”.

“A Sociedade Brasileira de Reprodução Humana contraindica o uso da maca como tratamento. Existem pouquíssimos trabalhos científicos na área, trabalhos sérios, em revistas renomadas e que tragam avaliação da metodologia do estudo. Todos os que existem têm estatísticas muito pequenas. Então, não há embasamento científico. Eu não posso dizer que uma mulher vai tomar e engravidar em 30 dias. Isso não existe. Isso é impossível. Isso está errado. Não tem o menor cabimento falar isso”, disse ela, que é PhD em Infertilidade e Fertilização in vitro.

Maca liberada?

A venda do produto no Brasil só é liberada como alimento (Consulte aqui marcas autorizadas).

Como medicamento que auxilia na fertilidade, ele precisaria ter um registro da Anvisa comprovando tal benefício, com sua segurança e qualidade atestadas.

Mas esse registro não existe, ao contrário do que diz, por exemplo, o perfil @engravidar.macaperuana.

“O comércio sem registro caracteriza infração sanitária e crime contra a saúde pública”, disse a Anvisa à BBC. “É uma irregularidade atribuir propriedades terapêuticas, funcionais ou de saúde relacionadas ao consumo da maca peruana, pois essas não foram avaliadas e aprovadas pela Anvisa”.

Também “não constam em nenhuma política, diretriz ou recomendação técnica do Brasil a utilização do kit para engravidar, nem mesmo evidências científicas para o uso da substância, derivados ou preparações com maca peruana”, segundo o Ministério da Saúde.

‘Infrações’

A Anvisa diz que anúncios apontando a maca, por exemplo, como “supermedicamento 100% natural” capaz de “aumentar a fertilidade, diminuir a mortalidade dos embriões e aumentar a produção de espermatozoides” não são, portanto, permitidos. É assim, no entanto, que eles aparecem nos sites andesprimemaca.com.br e kitparaengravidar.com.br.

Leia reportagem completa da BBC aqui

FONTE/CRÉDITOS: Nova Cruz Oficial

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