Os indícios de obstrução à investigação do duplo homicídio que vitimou a então vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco e o motorista dela, Anderson Gomes, foram descobertos pelo Ministério Público Federal no Rio Grande do Norte. As informações, de acordo com a Polícia Federal. foram repassadas ao órgão por dois detentos. Um deles, Orlando de Oliveira Araújo, conhecido como Orlando de Curicica, está no presídio federal de Mossoró e já foi ouvido pelo MPF. Ele é apontado como chefe de uma milícia em Curicica, bairro da zona oeste do Rio de Janeiro. A identidade da outra testemunha-chave é mantida em sigilo.
Leia também:
PGR pede acesso a inquérito sobre investigação do caso Marielle
Viúva de Marielle Franco diz estar otimista com rumo das investigações
Bolsonaro espera que identifiquem mandante do crime de Marielle
Acusados de matar Marielle Franco são transferidos para Mossoró-RN
PF pede acesso a inquérito que investiga morte de Marielle
As novas informações provocaram a abertura de uma nova investigação em novembro de 2018, mas o fato de as revelações terem ocorrido no RN só foi divulgado agora por conta de uma ação da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, impetrada no Superior Tribunal de Justiça (STJ). No processo, ela requisitou a íntegra do inquérito para apurar possíveis irregularidades na investigação do crime. A petição assinada por Raquel Dodge é sigilosa.
A razão disso é assegurar o acesso a informações que possibilitem instruir um Procedimento Preparatório de Incidente de Deslocamento de Competência (PPIDC), aberto em março do ano passado, logo após os homicídios. O pedido, encaminhado ao presidente da Corte, João Otávio de Noronha, para distribuição tem como fundamento impedimento de acesso da Procuradoria-Geral da República à íntegra ou à cópia do inquérito.
A informação, divulgada pelo próprio MPF, veio à tona na sexta-feira (16) . Em novembro de 2018, Raquel Dodge havia requisitado a instauração do inquérito ao Ministério da Segurança Pública após ser informada da existência de indícios de obstrução à investigação.
O objetivo era evitar que, por desvios e deficiências da investigação, inocentes pudessem ser culpados e os reais autores dos assassinatos fossem inocentados. A possibilidade de isso acontecer foi denunciada nos depoimentos dos informantes aos MPF no RN.

“A impunidade dos mandantes é manifesta”, diz Raquel Dodge
Na petição, Raquel Dodge enfatiza que, passados quase seis meses da denúncia e praticamente um ano e meio dos crimes, não se tem notícias da identificação dos mandantes e nem de providências para a responsabilização criminal dessas pessoas.
“A impunidade dos mandantes é manifesta”, resume um dos trechos do documento. Ela afirma que várias perguntas seguem sem respostas e que, mesmo tendo requerido a instauração de inquérito para apurar falhas na investigação, a PGR não obteve acesso às informações.
Na opinião da procuradora-geral, a negativa de acesso aos dados “mantém o grave estado atual de incerteza em relação aos mandantes do crime, tornando perene a conclusão de que a morte da vereadora Marielle Franco e de Anderson Gomes foi mero crime de ódio”.
A parlamentar e o funcionário dela foram assassinados com vários tiros dentro do carro de Marielle, no centro do Rio de Janeiro, em 14 março de 2018. Respondem pelos homicídios os ex-policiais Ronnie Lessa (reformado) e Élcio Queiroz (expulso da Polícia Militar). Eles seguem presos em Mossoró.

Correio do Agreste