O jornalista e poeta Crispiniano Neto dirige pela terceira vez a Fundação José Augusto (FJA) no Rio Grande do Norte. A marca que ele imprime na gestão é a da reconstrução da política cultural do Estado. Natural de Santo Antônio do Salto da Onça, no Agreste potiguar, ele ainda é agrônomo, bacharel em Direito, cordelista, radialista, editor, produtor, diretor e ator.
Crispiniano Neto foi aluno da Escola Agrícola de Jundiaí e engenheiro agrônomo pela hoje Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA). Ele também é membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, ocupante da cadeira de nº 26, que tem como patrono Luís da Câmara Cascudo. O potiguar é integrante da Academia Norte-rio-grandense de Literatura de Cordel e da Academia Mossoroense de Letras, além de ser membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.
Como poeta tem mais de 160 folhetos de Literatura de Cordel publicados, com mais de três milhões exemplares espalhados pelo Brasil e outros países. Publicou mais de 20 livros, participou da comissão gerenciadora da Lei Câmara Cascudo por mais de dez anos e fez parte do Conselho Curador da Fundação José Augusto antes de assumir a gestão.
À Cultue, o gestor falou sobre o projeto “Reviva Cultura”, de reabertura de espaços culturais, indicou possíveis mudanças do mundo artístico no pós-pandemia e teceu críticas ao atual governo federal.
Revista Cultue – Sabemos que o senhor tem uma vasta carreira e ocupa atualmente lugares importantes, como a Academia Brasileira de Literatura de Cordel. Como surgiu seu interesse pela literatura e artes em geral?
Crispiniano Neto – Desenvolvi o hábito da leitura na Biblioteca Pública de Santo Antônio (do Salto da Onça), cidade onde nasci. Fui o maior frequentador da biblioteca. Estava sempre lendo ou levando livros para ler em casa. O cenário para as artes era muito desfavorável naquele ambiente de uma cidade muito pequena em tempos de ditadura. Santo Antônio era, de certa forma, a minha Macondo, onde a vida corria muito ligada ao passado, mas sem muita consciência disso. Fui conhecer a atividade teatral, por ética e musical no Colégio Agrícola de Jundiaí, onde convivi com Aécio Cândido. Ali realizávamos shows, fazíamos um jornalzinho mimeografado e trazíamos atrações culturais para os colegas. Estes dois momentos são fundamentais para o desenvolvimento do meu interesse pela Cultura.
Revista Cultue – Ter nascido no interior do RN foi, de alguma forma, empecilho para que o senhor adentrasse o mundo cultural? Suas raízes territoriais influenciam sua obra?
Crispiniano Neto – Claro. O interior tem suas raízes culturais muito fortes, mas política cultural praticamente não existe. A Fundação José Augusto até a criação do programa de casas de cultura no interior, quase não passava da Reta Tabajara. Era uma fundação quase que natalense. A única vez que ouvi falar dela foi quando Santo Antônio recebeu o Circo da Cultura. Veja que Mossoró, para onde fui fazer faculdade e fiquei, é uma cidade com muita força na área cultural, mas Natal, a quem o jornalista Canindé Queiroz chamava de “Nova Roma,” é uma cidade que gira em torno de si própria. Não tem uma visão de Estado. Como sede de poder não olha muito para os outros territórios de cidadania. É uma tragédia que no início da terceira década do terceiro milênio, um Estado que tem 167 municípios, só tenha livrarias em três deles, teatros em dez e só tenha cinemas em shoppings, que só existem em Natal e Mossoró. Bibliotecas existem em quase todos os municípios, mas não existem projetos de leitura. Estamos tentando furar essas barreiras com os nossos editais, garantindo cotas de prêmios nos dez territórios de cidadania. Minhas raízes culturais influenciam, sim, a minha obra e a minha vida. Mas é bom dizer que para conhecer as próprias raízes temos que pesquisar muito e ter uma militância cultural com este foco, pois somos justamente da geração mais vitimada pelo violento processo de invasão cultural que se processou de maneira dolorosa durante a guerra fria, que coincide justamente com a ditadura brasileira e a consolidação da televisão com seu claro projeto de hegemonia ideológica. Nestes tempos a nossa cultura sofreu um grave processo de invisibilização e de substituição por valores culturais que não são nossos.
Revista Cultue – O senhor é engenheiro agrônomo, além de outras profissões e especializações. Acredita que a educação tem papel importante no acesso à cultura?
Crispiniano Neto – Quanto à minha condição de engenheiro-agrônomo, costumo dizer que agrônomo ou dá pra tudo ou não dá pra nada. Porque o curso abrange as três grandes áreas acadêmicas, a Ciências Exatas, pois é uma Engenharia, as Ciência Biológicas porque aprendemos a trabalhar com a vida , tanto na para animal quanto vegetal e ainda no que se refere à Microbiologia e abrange com amplitude as ciências sociais, pois o curso nos oferece, Sociologia, economia, conhecimentos antropológicos e pedagógicos para que se possa tornar extensionista e ainda a administração. Durante todo o curso de Agronomia agregamos a tudo isso o trabalho artístico-cultural, pesquisando, produzindo e publicando Literatura de Cordel e trabalhando com teatro, música e com a luta estudantil que amplia muito a visão de mundo. Costumo dizer que os destaques dos estudantes da minha época são mais para os que se envolveram com a luta estudantil e cultural do que para os CDFs, os excelentes alunos ‘nota 10’, que aprenderam muito as disciplinas mas não desenvolveram uma visão de mundo ampla mais transversal. Depois ainda tive uma vivência como estudante e líder estudantil do curso de Direito, quando me envolvi mais ainda com a questão da Cultura. E uma larga experiência como professor de Educação Artística, sindicalista, cooperativista e homem de rádio e jornal, afora a militância partidária que exige a gente ser como diz o poeta Concriz, em verso usado por Alceu Valença, “ser como saco de cego, que de tudo tem um pouquinho”… Quanto à educação tem um papel central, pois como já falei, nossas cidades não têm teatros, livrarias nem cinemas. Acrescente-se aí também a ausência de galerias, museus e outros espaços culturais. A TV tornou-se uma máquina unificadora dos saberes, pasteurizando tudo a partir dos interesses que ela defende. A internet chegou, mas não trouxe grandes novidades porque a maioria da rapaziada pulou da TV para o Iphone sem passar pelo livro e esta ferramenta magnífica tornou-se apenas uma espécie de “mais do mesmo”. Me impressiona que somente 14% das casas brasileiras tenham livros. Isso quer dizer que em cada dez lares deste País, oito nunca viram um livro. Dói-me constatar que o único bem mais concentrado que a terra e o dinheiro no Brasil é o livro. Então, o papel da escola é fundamental para suprir essa distorção. Infelizmente quase não vemos esta discussão no meio educacional. Não é por acaso que sofremos em profundo grau a sentença poética de Mário Quintana: “O pior analfabeto é aquele que aprende a ler, mas não lê”. As teorias pedagógicas apontam para um casamento forte entre arte e educação, mas na prática deixa muito a desejar. Não por acaso eu e Getúlio Marques, secretário da Educação, temos nos esforçado muito para unir cultura e educação. Não é fácil porque em 65 anos de Fundação José Augusto isto nunca aconteceu de fato. Mas estamos lutando neste rumo.
Cultue – Até hoje, qual foi seu maior desafio como escritor? Qual é a obra que o senhor destaca na sua carreira?
Crispiniano Neto – Minha poesia é popular nos dois sentidos. Tanto no sentido de ser de alcance do povo, como do ponto de vista político, de ser uma poesia em defesa das lutas do povo. Já vi colegas tentando incluir palavras bonitas, difíceis nas suas poesias para parecer erudita. Faço justamente o contrário. Sempre procuro deixar a mensagem mais compreensível e mais fácil de ser usada pelas pessoas do povo. Sem maiores pretensões sou, talvez, aquilo a que Gramsci chama de intelectual orgânico. Meu maior desafio foi mesmo o meu primeiro livro: “A verdade é pra ser dita”, publicado sob as graças do jornal Gazeta do Oeste, onde eu trabalhava e tinha a gráfica ASTECAM. A obra de destaque, sem dúvida, é “Lula na Literatura de Cordel”, que me abriu espaço em todos os recantos do País, até pela força da personagem. Cheguei até a ver grande parte do meu livro encenado no Sambódromo de São Paulo, pela Escola de Samba Gaviões da Fiel, que trabalhou o meu livro e “Lula, o filho do Brasil”, de Denise Paraná, mas como o cordel permite mais a dramatização, os nosso temas estavam mais presentes ali. Em termos de abrangência posso citar “O Nordeste nas canções de Luiz Gonzaga” que já deve estar perto de 150 mil exemplares vendidos e adotados em centenas de escolas como ‘paradidático’. “O Casamento de Zé Teatro com Maria Escola”, texto de dramaturgia, também se tornou importante porque é uma peça teatral com mais de trezentas montagens. E o “Auto da Liberdade”, outra peça teatral que chegou até a concorrer ao Guiness Book.
Cultue – Quem são seus maiores influenciadores culturais?
Crispiniano Neto – Na educação, Paulo Freire; na poesia e na música Chico Buarque, no estudo da Cultura Popular, o mestre Câmara Cascudo patrono da minha cadeira na Academia Brasileira de Literatura de Cordel, gênio de quem tive a honra de apertar a mão. Quanto aos escritores, gosto de muitos, mas tenho predileção por George Orwell.
Cultue – Sabemos que o senhor tem forte presença na política. O que guia sua atuação nesse sentido?
Crispiniano Neto – O mesmo que me guia nas artes e na vida. A utopia de ver um mundo melhor. O sonho da felicidade que vi em meu pai, um homem simples, mas que dedicou a vida a fazer o bem, que não deixou nenhum bem material para os filhos, mas deixou a herança da inteligência e do caráter.
Cultue – O senhor já assumiu a FJA em outras duas oportunidades. Essa experiência prévia te ajuda de que forma?
Crispiniano Neto – Creio que seria muito difícil a um gestor que chegasse na Fundação José Augusto sem conhecer os fios soltos da meada, a cultura da instituição, com seus prós e contras, as fraturas expostas e as soluções que estão nos meandros, nos escaninhos, nos vãos das coisas. Saber onde as coisas pararam e por quê pararam é um manancial de conhecimentos que ajuda demais a tomar decisões. O principal é ter relações dentro e fora da instituição que ajudam a destravar as coisas. Conhecer as pessoas, suas competências e limitações e, principalmente, suas idiossincrasias. Uma instituição tem sentimentos e saber o sentimento das pessoas que a fazem é fundamental.
Cultue – A cultura era um setor talvez negligenciado por alguns. O que pode explicar esse fenômeno, na sua visão?
Crispiniano Neto – A cultura sempre foi negligenciada. E digo sem menosprezar governos anteriores. Quando cheguei à Fundação no governo Wilma a infraestrutura da cultura potiguar já estava em declínio. A FJA começou a decair quando, no passado, venderam as ações da Petrobrás que garantiam recursos à instituição. A partir daí foi a caminhada para o “pires na mão”. Os recursos da Cultura não são vinculados então, os cortes chegam, quando chove muito ou quando faz muito sol. Se houver uma queda nas bolsas da Cochinchina a cultura é atingida. Agora temos uma situação mais delicada, porque a Cultura entrou na linha de tiro no “negacionismo” e aí não se trata só da Cultura artística. Engloba também a cultura científica, a filosofia, as religiões e tudo que represente a inteligência. Não se trata só de um tempo de negacionismo. É barbárie mesmo. Não por acaso Hitler mandou queimar livros e Mussolini disse que a cabeça de Gramsci tinha que parar de pensar. É disso que se trata hoje.
Cultue – Na pandemia, as artes ganharam força e acalentaram muitas pessoas no período de isolamento social. O senhor acredita que agora as pessoas passaram a enxergar a importância do segmento?
Crispiniano Neto – Assim como tivemos um novo comportamento com as energias depois do “Apagão” dos tempos de FHC, com certeza está sendo construída uma nova mentalidade com relação à cultura e à própria maneira de viver para a pós-pandemia. Deve ser uma pessoa muito limitada mentalmente para não ter lido livros e revistas, não ter assistido filmes e curtido música na pandemia. Nem que seja novela diária e reprisada, de alguma forma as artes estiveram presentes na vida das pessoas durante o período de distanciamento e isolamento social. O reflexo disto está na força com que as pessoas estão voltando aos eventos. O show do Cordel do Fogo Encantado na reabertura da Pinacoteca, as performances da inauguração da Biblioteca, uma semana de casa cheia como estamos vendo na reabertura do Teatro Alberto Maranhão, quando tivemos casa cheia até para ver cinema potiguar em dia de Homem Aranha nos cinemas comerciais. E o que se espera para o show de Chico César na reabertura do Forte dos Reis Magos é mostrar que as pessoas estão voltando mais linkadas com as artes, mais desejosas de bons espetáculos. O Papódromo e a Árvore de Natal estão cheios quase diariamente. Aprendemos muito com a pandemia e com certeza iremos aprofundar este aprendizado na medida em que novo normal vá se configurando com suas novas nuances.
Cultue – Aliás, a Lei Aldir Blanc, sancionada pelo atual governo federal, possibilitou que muitos artistas produzissem conteúdo nesse período. Foi uma lei acertada?
Crispiniano Neto – Mesmo sem querer negar que a lei foi sancionada pelo governo federal, não podemos deixar de destacar que foi uma lei contra a vontade do governo, que tem se posicionado contra a cultura em todos os momentos. Esta foi uma lei construída de baixo para cima. Começou como uma demanda dos artistas depois que Aldir Blanc, médico e famoso, morreu de Covid à míngua, perambulando por hospitais do Rio de Janeiro, que Nelson Sargento colocou seu violão e os ternos da Verde e Rosa à venda e Zizi Possi abriu uma vaquinha virtual. Aí se viu a tragédia que tinha se abatido sobre os trabalhadores da cultura em geral. O Fórum dos Secretários Estaduais de Culturais abraçou a causa e os secretários municipais se engajaram. A deputada Benedita da Silva apresentou um projeto de 600 milhões e descobriu que havia 2,8 bilhões da cultura encalhados desde Michel Temer. Mais cinco deputados apresentaram projetos. O movimento cultural conseguiu junto a Rodrigo Maia, então presidente da Câmara, fazer o projeto tramitar e caímos em campo, em todo o Brasil, para mobilizar os políticos. A aprovação foi unânime, com exceção do Partido Novo. Realmente houve muita produção. No RN, foram 2.700 prêmios mais 900 auxílios emergenciais, perfazendo 3.600 premiados. São Paulo com dez vezes mais dinheiro premiou quatro mil artistas. Quando vemos uma mostra de audiovisual produzida com recursos da Lei Aldir Blanc enchendo o Teatro Alberto Maranhão e com um nível de qualidade impressionante ficamos muito felizes. Basta dizer que ‘Sideral’, que chegou a Cannes, está neste pacote de luxo.
Cultue – O governo federal, vale lembrar, extinguiu o Ministério da Cultura. Em que medida esta ação prejudica os Estados e, particularmente, o Rio Grande do Norte?
Crispiniano Neto – É uma ação criminosa. Veja que Temer tentou acabar com o Ministério da Cultura e não conseguiu. Bolsonaro não só acabou, como rebaixou para Secretaria, que ficou migrando de um ministério para outro e, entre titulares e interinos, já teve nove “secretários nacionais” de Cultura até chegar nesse rapaz que lá está para travar tudo. Imagine o que é ver-se um “ministro” da Cultura lutando contra a Lei Paulo Gustavo, é como se o ministro da Saúde lutasse contra o SUS. Prejudica demais os estados e municípios, mas a gente luta tentando encontrar brechas e soluções com servidores de carreira que ficaram por lá e que têm amor à cultura e ao serviço público. O Rio Grande do Norte tem a sorte de ter uma governadora que granjeou respeito mesmo num governo de extrema direita e quando as coisas desandam ela entra no circuito e ajuda a destravar.
Cultue – Mesmo com dificuldades, a gestão estadual preparou a reabertura de alguns equipamentos culturais que estavam fechados há anos, como o Teatro Alberto Maranhão e a Pinacoteca. Como foram empreendidos os esforços para que isso fosse possível? A iniciativa se faz de extrema importância, principalmente nesse período turbulento para a cultura?
Crispiniano Neto – Parece um sonho, que na contramão do marasmo, do isolamento, da falta de recursos e do negacionismo, estejamos acendendo as luzes e abrindo as cortinas dos principais equipamentos que compõem a infraestrutura da Cultura Potiguar. A Biblioteca Câmara Cascudo, que é ‘cabeça de rede’ fechada há nove anos, Teatro, Papódromo, Escola de Dança, Pinacoteca, Forte dos Reis Magos, todos fechados há seis anos e ainda o Museu da Rampa que é da SETUR, mas também é Cultura. Além disso temos centenas de projetos em andamento pela Lei Aldir Blanc e dezenas pela Lei Câmara Cascudo, fizemos o edital do RPV – Registro do Patrimônio Vivo que beneficiará mestre e grupos folclóricos na terra de Câmara Cascudo e Veríssimo de Melo e estamos ganhando um edital de 15 milhões junto ao BNDES para investirmos nas casas de Cultura, chegando com a ação do Governo Fátima Bezerra no interior, onde também já chegamos com quase 15 milhões da Aldir Blanc com o processo de territorialização dos editais. Avaliamos que o saldo seja muito positivo para tempos tão difíceis. Ressalte-se que somente na área de publicações tivemos nada menos que 183 títulos publicados, um saldo animador.
Cultue – A Lei Câmara Cascudo, de âmbito estadual, atende grandes espetáculos. Como diluir esse investimento aos pequenos projetos e, sobretudo, ao interior do RN?
Crispiniano Neto – Estou na Lei Câmara Cascudo desde a primeira Comissão Gerenciadora quando fui eleito para representar a sociedade civil organizada. Sempre fui crítico da visão extremamente neoliberal da lei. Neoliberal e concentradora. Sempre questionei que a Paraíba no Fundo Augusto dos Anjos financiava cem projetos com dois milhões e aqui com cinco ou seis milhões a LCC financiava 18 a 20 projetos por ano, sendo que 75% dos recursos ficavam para cinco ou seis projetos sempre repetidos. Vale salientar que 90% dos recursos ficavam em Natal, com os outros 10% ficando quase que só entre os municípios produtores de petróleo, até que a Petrobras deixou de patrocinar cultura no Estado e concentrou mais ainda. Hoje a COSERN tem um edital todos os anos que recebe algumas críticas, mas cumpre o importante papel de descentralizar os recursos, aumentando o número de projetos patrocinados e espalhando mais pelas regiões do Estado. Mas concordo que ainda tem muito a melhorar na Lei Câmara Cascudo. A chegada, em breve, do Fundo Estadual de Cultura deverá ajudar a corrigir mais um pouco essa distribuição de recursos.
Cultue – Com o avanço da vacinação contra a Covid, qual é a perspectiva para grandes eventos no estado?
Crispiniano Neto – A perspectiva é muito boa, mas é preciso que as pessoas entendam que além da vacinação, precisa continuar o uso da máscara, o distanciamento e o uso do álcool, seja em forma de gel ou não, mas que seja a 70 graus. O maior problema que enfrentamos desta pandemia foi a ignorância. Se as pessoas tivessem a mínima noção de microbiologia, de como é formado um vírus, de como ele se reproduz e do modo como ele pode ser combatido ou evitado não teríamos o mundo ajoelhado diante de um ser tão frágil. Se as pessoas souberem se comportar com mentalidade profilática e de respeito à vida. À vida dos outros e à própria vida.
Cultue – O senhor acredita que o mundo artístico/cultural mudará no pós-pandemia? De quais formas?
Crispiniano Neto – Sim. Mudará. Uma coisa que veio para ficar é o trabalho virtual, especialmente no mundo artístico, cuja essência é o ato de comunicação. Ninguém produz arte para si e as redes sociais aí estão para ficar. Além das tecnologias de comunicação temos outras formas de acessibilidade que vieram para ficar. Produzimos uma revista O Galo e uma Preá. Não temos mais tempo nem dotação orçamentária para mandar imprimir. Vamos difundi-las pelas redes sociais. O QR Code será a porta de entrada. O mais difícil está pronto, que é o conteúdo. O acesso terá muito mais possibilidades e com certeza haverá muito mais leitura.
Cultue – Quais são as prioridades da FJA para 2022?
Crispiniano Neto – Num tempo de resquícios de pandemia e ainda de quebradeira no Estado, que só agora começa a dar sinais de equilíbrio fiscal é difícil planejar. Mas temos como grande prioridade investir nas casas de cultura, na formação de artistas, na luta para reabrir a gráfica e editora e de aprofundarmos a parceria com a Secretaria de Educação para chegarmos com atividade cultural nas escolas. E, claro, enchermos de atividades os espaços que estão sendo abertos, visto que a abertura de cada um deles é apenas um recomeço.

Correio do Agreste