São Bernardo do Campo (SP) – A saída da Ford de São Bernardo e a política de incentivos fiscais foram temas centrais da assembleia dos metalúrgicos do ABC, das 7h às 8h desta terça (12), quando se confirmou o fechamento da fábrica, apesar dos esforços para reverter a decisão. Além dos sindicalistas, parlamentares afirmaram que os benefícios concedidos à empresa precisam ser questionados pelo Legislativo e pelo Executivo. A presidenta do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR), chegou a afirmar que Jair Bolsonaro deve incluir o tema Ford como prioridade em sua agenda com Donald Trump – os presidentes brasileiro e norte-americano se reúnem daqui a uma semana.
"Precisamos transformar esse assunto em um escândalo nacional", afirmou o deputado estadual Teonílio Barba (PT), ex-funcionário da própria Ford em São Bernardo. Ele lembrou que há anos os metalúrgicos participam de discussões sobre reestruturação da unidade, em temas como automação e produtividade. "Não podemos aceitar que a Ford saia desse jeito. Não é uma negociação, é um anúncio de abandono", disse Barba, com a ressalva que o debate não acabou. "Dia 7 não é o fim", emendou, referindo-se à reunião realizada na semana passada com a direção mundial da companhia.
Para Gleisi, o Congresso aprovou a política de subsídios e, por isso, precisa cobrar a empresa. Com os incentivos concedidos até hoje à Ford, o governo se tornou um "acionista" da montadora. "Eles têm de prestar contas. O que eles fizeram com os subsídios? Vão ter de sentar com um dos acionistas mais importantes, que é o Estado brasileiro", afirmou a deputada.
Segundo ela, Bolsonaro também tem de receber uma representação dos metalúrgicos e dos trabalhadores da Ford. E a manutenção da empresa norte-americana no ABC deveria ser o "principal assunto" da reunião com Trump, na semana que vem, nos Estados Unidos. Cinco dias atrás, sindicalistas estiveram lá, conversando com a direção mundial da montadora, que alegou uma estratégia global para ratificar a decisão de fechar a unidade de São Bernardo.
Mas o presidente do sindicato, Wagner Santana, o Wagnão, disse ter recebido informações de que a empresa estaria estudando uma mudança interna no Brasil, e inclusive teria visitado áreas no Paraná. "A Ford precisa saber que nós sabemos", alertou. Ele lembrou que, durante a reunião em Dearborn, na quinta-feira passada (7), o vice-presidente executivo Joseph Hinrichs, presidente de Operações Globais, chegou a comentar que isso já aconteceu em outros locais.
O ex-presidente do sindicato Rafael Marques, funcionário da Ford, hoje à frente do Instituto Trabalho Indústria e Desenvolvimento (TID), também questionou o presidente da companhia para a América do Sul, Lyle Watters, que em reunião no dia 19 de fevereiro, quando anunciou o fechamento, informou que a decisão era restrita a São Bernardo. Na conversa na sede mundial, a informação foi outra, de que a montadora está em processo de reestruturação mundial, que envolve ainda fábricas na França e na Rússia, além do Brasil.
"Eles querem colocar o pé no carro autônomo, no carro elétrico", afirmou Rafael. "E nosso país não está preparado (para o debate sobre política industrial), não está discutindo. Não vamos desistir dessa luta, mas temos de saber onde estamos envolvidos." O sindicalista lembrou ainda que a própria Ford assegurou que "não há nenhuma responsabilidade da comunidade de São Bernardo" nos problemas enfrentados pela empresa.

Correio do Agreste