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Sábado, 03 de Outubro 2026
Brasil

Golpe frustrado é oportunidade histórica para o Brasil superar o maior mal da democracia: a tutela militar

País pode, enfim, refundar a república, com a efetiva soberania, sem a tutela da monarquia ou dos generais, seus sucessores

Portal Correio do Agreste
Por Portal Correio do Agreste
Golpe frustrado é oportunidade histórica para o Brasil superar o maior mal da democracia: a tutela militar
As portas abertas do Palácio por quem deveria protegê-lo (Foto: Adriano Machado / Reuters, Exército Brasileiro)
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Duas cenas no domingo mostram que os militares estavam comprometidos com a ação terrorista que visava ao golpe do Estado. Uma delas mostra o coronel Paulo Jorge Fernandes da Hora, comandante do Batalhão da Guarda Presidencial (BGP), sendo contido por PMs. ‘Está doido, está doido? Você está louco?”, grita um policial enquanto empurra o comandante do BGP, com as mãos em seus ombros. O coronel diz algumas palavras incompreensíveis. Mas dá para ouvi-lo afirmar: “O pessoal está descendo”. O policial grita: “Todos presos”. E repete: “Coronel, todos presos. Ninguém vai descer, não”. O coronel balança a cabeça afirmativamente.

A outra cena ocorre algumas horas depois, quando a tropa de choque da PM , já sob intervenção do governo federal, se dirige ao acampamento na área do quartel general do Exército, em Brasília. O objetivo é efetuar prisões em flagrante, já que os terroristas haviam fugido para lá. Blindados e uma barreira de militares do Exército impedem a entrada da tropa de choque. Era início da madrugada de segunda-feira. Pela manhã, o Exército permite a ação da Polícia, que tinha o respaldo do Supremo Tribunal Federal, através de decisão de Alexandre de Moraes.

Uma mulher levada de ônibus para a prisão resume assim o episódio: “Uma pena, uma pena. O Exército, que jurou que iria nos defender e que iria ficar do lado do povo, nos entregou aos lobos. Exército nunca mais.” A mulher, se participou da invasão das sedes dos três poderes, é uma criminosa e deve responder pelo seus atos, com base na lei antiterrorismo. Mas ela não deixa de ter razão quando manifestou que se sente traída. 

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Pelos fatos que estão sendo revelados, muitos deles em grupos bolsonaristas, é possível concluir que os brasileiros que ficaram concentrados perto de instalações militares foram massa de manobra. O objetivo — não declarado, mas agora evidente — sempre foi usá-los para impedir a posse de Lula ou derrubá-lo, como se tentou fazer no domingo. A presença dessa massa perto dos quartéis possibilitava a narrativa de que havia “clamor popular”.

A minuta do decreto de estado de defesa encontrada na casa do ex-ministro da Justiça Anderson Torres é mais uma peça do jogo pesado que colocou em risco a jovem democracia brasileira, em benefício dos militares e de seu principal ator político, Jair Bolsonaro. E por que não deu certo? Pelo que dizem líderes bolsonaristas, existia divisão no Exército.

O ex-comandante do Exército, general Freire Gomes, tem sido atacado nos grupos bolsonaristas porque não teria concordado com a decretação do estado de defesa. Um dos primeiros a criticar o general foi Bismarck Fugazza, criador do canal Hipócritas e muito ligado a Bolsonaro. Ele fugiu do Brasil depois que Alexandre de Moraes decretou sua prisão. 

Do exílio, comentou que Freire Gomes discordou de Bolsonaro quanto ao decreto. Não havia clareza ainda de que o que se tentou foi o estado de defesa — falava-se na invocação do artigo 142 da Constituição, que os golpistas dizem autorizar as Forças Armadas a atuarem como poder moderador. 

Depois que a minuta do decreto foi encontrada, Bismarck voltou a dizer que Freire Gomes “deu para trás”, e disse que a reunião para discutir sua edição ocorreu no dia 16 ou 17 de dezembro. É precipitado assegurar que o general abortou a aventura golpista de Bolsonaro por princípio democrático. Por enquanto, o mais prudente é afirmar que ele pensou na própria carreira, o que não deixa de ser um ato de lucidez.

Freire Gomes teria dito a Bolsonaro que não trocaria 20 dias de glória, com a decretação de estado de emergência, por 20 anos anos de dor de cabeça. Está correto. O decreto de Bolsonaro teria vida curta, como a própria tentativa de golpe no domingo. E a razão é simples: o Brasil não quer, à exceção daqueles que foram usados como massa de manobra na frente dos quartéis.

Diferentemente de outros golpes, como em 1964 e 2016, não existe apoio de empresário ou banqueiro relevante, seus porta-vozes, entre os quais a imprensa corporativa, já disseram que não admitem nova ruptura democrática. Os políticos também não querem se colocar outra vez como vassalos dos militares, e isso inclui governadores. A comunidade internacional também rejeita golpe no Brasil.

E o STF, com esse respaldo, tem demonstrado uma coragem incomum para seus padrões históricos, graças, em grande parte, ao ministro Alexandre de Moraes.

O Brasil venceu os algozes da democracia, e daqui a alguns meses talvez se vejam os atos terroristas de domingo como a oportunidade histórica de superar seu maior mal: a tutela dos militares. Desde que deram um golpe e se sentaram na cadeira de Dom Pedro II, em 1889, eles acreditam ter herdado uma anomalia de então, o poder moderador.

Talvez estejamos diante da refundação da república, em que a soberania será sempre do povo, nunca dividida com o imperador ou os militares.

 
FONTE/CRÉDITOS: Joaquim de Carvalho / 247

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