Padrasto conta que queixas foram arquivadas, e pedido de guarda não avançou. Menina de 2 anos morreu na última quinta-feira (26), na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Coronel Antonino, no Mato Grosso do Sul
Antes de ser morta com sinais de espancamento, e indícios de estupro, Sophia, de apenas 2 anos, esteve no centro de uma batalha judicial que foi crucial no desfecho da sua curta história de vida. No fim de 2021, dois anos antes do assassinato da criança, o pai, que se separou da mãe e vive atualmente com um companheiro, percebeu ferimentos na filha e denunciou que a menina estava sofrendo maus-tratos. A investigação não foi adiante, a mãe e a avó materna negaram. No ano seguinte, ele, que passou a fazer uma verdadeira vistoria no corpo de Sophia toda vez que ela ficava com ele e seu marido, fez nova queixa. Com guarda compartilhada, pediu a guarda exclusiva. Com o crime consumado, ele não consegue ainda falar sobre a perda de Sophia. O padrasto, a quem ela chamava de "papai urso", resumiu a dor que se abateu sobre o casal: "Foi devastador".
Igor de Andrade diz que não esquece o momento em que viu o corpo da enteada sem vida. Sophia de Jesus Ocampo tinha marcas de soco e lesões na região do tórax e da cervical, o nariz e boca sangravam e braços, rosto e olhos tinham hematomas. O padrasto relata que ele e o pai da criança, Jean Carlos Ocampo, tinham denunciado a genitora e, com o fim trágico, o companheiro está sob forte abalo psicológico.
— Ela é minha filha do coração, tenho vídeos dela dizendo que tinha dois pais e que eu era o papai urso. O que mais dói é saber que toda a burocracia de testemunhas tirou a nossa filha da gente. As pessoas desistiam de depor. Todas as denúncias foram em vão e agora estamos lutando para que não existam outras vítimas como a Sophia — afirma Igor, que tem mobilizado as redes sociais com a hashtag #JustiçaPorSophia.
Sophia morreu na última quinta-feira (26), na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Coronel Antonino, no Centro de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, após ser agredida e estuprada. A mãe e o padrasto da criança, de 24 e 25 anos respectivamente, foram presos e autuados homicídio qualificado por motivo fútil e estupro de vulnerável. No prontuário médico da vítima consta que ela já havia sido atendida 30 vezes na UPA, uma delas por fraturar a tíbia.
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Na foto, Jean Carlos Ocampo, pai de Sophia de Jesus Ocampo, ao meio, e Igor de Andrade, padrasto da vítima — Foto: Reprodução
De acordo com Igor e Jean Carlos, era comum Sophia chegar à casa deles com hematomas pelo corpo. Em dezembro, um boletim de ocorrência foi registrado contra a mãe da criança, identificada como Stephanie de Jesus da Silva, por maus-tratos.
— Na primeira vez que denunciamos a genitora, porque me recuso a falar que ela é mãe, nossa pequena tinha chegado em casa com a perna toda roxa, com arranhões no rosto e no corpo. Tinha marcas de dedos, como se tivesse apanhado mesmo. Fomos até o Conselho Tutelar, que nos orientou a fazer um boletim de ocorrência, mas não deu resultado. O que propiciou as sucessivas agressões — afirma o padrasto.
O segundo B.O. foi formalizado em novembro do ano passado, quando a criança chegou na casa do pai com a perna quebrada. Questionada pelo responsável, Stephanie teria dito que a menina caiu no banheiro. Igor relata que a mulher não respeitava as regras da guarda compartilhada e impedia a menina de ver o pai.
Denúncia enviada ao MP
A primeira denúncia foi arquivada pelo Ministério Público do Mato Grosso do Sul. O MP informou que foi registrado, em janeiro de 2022, um Termo Circunstanciado de Ocorrência por maus-tratos, na 10ª Vara do Juizado Especial Central.
Na época, foram ouvidas pela Polícia Civil a avó e a mãe da criança, que negaram ter os maus-tratos com a criança. Segundo o MP, o pai compareceu na audiência preliminar e informou perante a autoridade policial que os maus-tratos não voltaram a acontecer.
Sobre o segundo B.O., o MP confirmou que foi registrado junto à 11ª Vara do Juizado Especial, mas não foi repassado ao órgão.
Menina chegou morta no hospital
De acordo com a Polícia Civil, a mãe levou a menina à unidade de saúde, onde ela já chegou morta. Os médicos constataram que o óbito havia ocorrido cerca de quatro horas antes. No corpo da vítima havia vários hematomas e indícios de violência sexual.
A médica que atendeu a criança contou aos policiais que a mãe informou ter encontrado a filha desacordada. De acordo com a profissional, Stephanie estava “bem tranquila e mesmo após de ser avisada do falecimento da filha, ela continuou tranquila e só apresentou nervosismo quando foi informada de que seria necessário acionar a polícia para ir até o local.”
Contrariando o depoimento da profissional de saúde que atendeu a criança, mãe e padrasto afirmaram que a menina chegou com vida na UPA. Quando questionados sobre as agressões, por conta dos hematomas encontrados no corpo de Sophia, confessaram que agrediram a menina, cerca de três dias antes da morte, com tapas nas costas.
Segundo a polícia, os suspeitos já tinham combinado toda a história que iriam falar a respeito dos hematomas da criança. A mãe da vítima informou que o padrasto dava tapas e socos na menina e que ela já estava desconfiando dos abusos sexuais.

Correio do Agreste