Você sabia que aqueles problemas na sua pele, olhos, boca e até nas articulações podem ser consequências de Doenças Inflamatórias Intestinais, as chamadas DII?. O alerta é importante e vem da classe médica como forma de conscientizar a sociedade para os sinais e a necessidade de investigação e diagnóstico precoces, que possam melhorar a qualidade de vida das pessoas afetadas com essas situações.
A demora para confirmar as DII tem sido um dos fatores que mais aumenta o risco de complicações. “Como as DII não têm cura, o diagnóstico precoce permite um tratamento efetivo para evitar a recorrência de manifestações clínicas e conter danos, melhorando a qualidade de vida do paciente. Precisamos reforçar a conscientização para que as pessoas busquem o quanto antes informações oficiais e seguras”, alerta o diretor do Hospital Gastroprocto, o endoscopista e cirurgião geral Gutembergh Nóbrega.
As causas das DII ainda são desconhecidas, mas há três fatores potenciais: genética, ambiente - incluindo hábitos alimentares, medicações e tabagismo e microbioma (soma de todos os microorganismos que residem nos tecidos e fluidos humanos, composto principalmente de bactérias, mas que inclui também fungos, archaea e vírus). O histórico familiar de DII em parentes de primeiro grau, inclusive, aumenta levemente o risco de desenvolvimento dessas doenças.
No Brasil, a prevalência das doenças inflamatórias intestinais chega a 100 casos para cada 100 mil habitantes no sistema público. Entre as mais comuns estão a doença de Crohn ou retocolite ulcerativa, inflamações essas de diferentes segmentos do trato gastrointestinal, principalmente nos intestinos, e que estão cada vez mais presentes na vida dos brasileiros (são mais frequentes em adolescentes e adultos jovens - 15 a 40 anos).
Diarreia crônica com presença sangue e muco ou pus, com períodos de melhora e piora, associadas a cólicas abdominais, urgência evacuatória, falta de apetite, fadiga e emagrecimento costumam ser os sintomas mais frequentes. Em casos mais graves, observam-se ainda anemia, febre, desnutrição e distensão abdominal.
Porém, segundo Nóbrega, manifestações extraintestinais como dor nas articulações, lesões de pele ou oculares podem surgir e ter até mesmo um curso independente ou simultâneo à doença intestinal. “Estudos apontam que em 25% dos pacientes as manifestações extraintestinais podem iniciar até mesmo antes mesmo das manifestações digestivas, podendo ocorrer seis meses ou um ano antes do diagnóstico de doença de Crohn ou retocolite ulcerativa. Há pacientes que apresentam muita dor nas articulações e manchas roxas no corpo. Mas, da mesma forma que as DII podem levar a complicações em outras partes do corpo, o controle da doença intestinal faz melhorar as demais”, reforça.
Mas por que as DII levam a outras doenças no corpo? Acredita-se que há similaridades de alguma parte das células, que dividem a mesma sequência na periferia da célula igualmente no intestino e nessas outras regiões. “Como as DII são autoimunes, podem desencadear reações em outras partes do organismo”, reforça Dr. Gutembergh. Segundo ainda o especialista, há medicamentos capazes de atuar na inflamação do intestino e em locais extraintestinais. "Por isso, é importante ter um grupo multidisciplinar cuidando do paciente de DII, como reumatologista, dermatologista e outros para definir o melhor tratamento", destaca.
Para confirmar o diagnóstico das DII, o especialista analisa a história clínica e solicita exames laboratoriais, endoscópicos (endoscopia digestiva alta e colonoscopia) com biópsias, além de exames radiológicos (tomografia ou ressonância magnética com foco no intestino). “É importante salientar que os sintomas das DII são similares aos de doenças comuns, como síndrome do intestino irritável e diarreias infecciosas. Por isso, é fundamental uma análise global do paciente”, conclui.
PESQUISAS
Um estudo liderado pelo Gediib (Grupo de Estudos da Doença Inflamatória Intestinal do Brasil), que acompanhou 1.179 pessoas com DII entre 2020 e 2022, mostrou que cerca de 21% delas apresentaram manifestações extraintestinais. Entre as áreas do corpo que podem ser afetadas a partir das DII estão:
• Pele: inflamações (dermatites) na camada superficial que causam coceira, vermelhidão, inchaço, bolhas e até crostas e descamação;
• Articulações: a artrite afeta 30% dos pacientes com Crohn e 5% dos que têm retocolite ulcerativa;
• Olhos: a uveíte (inflamação da úvea, camada intermediária da parede ocular) é uma das complicações mais comuns da DII, com sintomas como dor, visão embaçada, sensibilidade à luz e vermelhidão (inflamação grave, inclusive com risco de cegueira);
• Ossos: as DII estão relacionadas à baixa densidade óssea, seja porque a absorção de cálcio pelo intestino fica comprometida ou porque os medicamentos provocam esse efeito e a própria inflamação e dificuldade de nutrição podem desencadear problemas como osteoporose e osteopenia;
• Boca: quando pessoas com DII estão em períodos de crises, com inflamação ativa do intestino, podem surgir erupções na boca e aftas;
• Saúde mental: uma meta-análise publicada em 2021 na revista The Lancet mostrou que a prevalência de sintomas de ansiedade em pessoas com DII foi de 32,1%.

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