Distúrbio de caráter crônico, a dermatite seborréica é uma doença que atinge o couro cabeludo e o rosto ao provocar descamação, inflamações, coceira e vermelhidão. Muitas vezes resumida a um simples problema de caspa, ela pode se tornar algo bem mais incômodo se não tiver o devido tratamento. Segundo dados da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), 40% de toda a população já teve problemas com caspas, ou apresenta picos esporádicos da doença que, embora crônica, pode ser controlada. A dermatite não é contagiosa e não tem a ver com falta de higiene – apesar de despertar preconceitos relacionados a isso.
Após 10 anos, Aureliano Medeiros passou entender os “gatilhos” de sua dermatite
A caspa é o sintoma mais conhecido da dermatite seborréica, a ponto de ter se tornado sinônimo do problema. “É apenas a forma mais popular de chamar a doença. Ela tem várias intensidades, pode ser um quadro bem leve ou bem mais intenso, o que pode levar a um desconforto maior para o paciente. E ela deve ser tratada mesmo nos quadros leves, pra evitar que se torne mais intensa”, afirma a dermatologista Yara Freitas. A dermatite é uma doença crônica, ou seja, não existe um remédio que cure.
A causa da dermatite ainda não é totalmente definida, enfatiza Yara, mas há fatores, “É uma inflamação que pode ter origem genética ou ser desencadeada por agentes externos como alergia, situações de estresse, fadiga emocional, baixa temperatura, álcool, alguns tipos de medicamento, e excesso de oleosidade”, diz. Alguns trabalhos também mostram a quantidade aumentada do fungo Pityrosporum Ovale, nas pessoas com dermatite no couro cabeludo. “Esse fungo já existe no nosso organismo, mas nesses casos eles estariam em um número maior”, completa.
A doença se desenvolve em áreas que possuem glândulas sebáceas em grande quantidade Portanto, a face é uma das regiões mais afetadas, junto ao couro cabeludo. A dermatite no rosto está relacionada com a do couro cabeludo, e geralmente ela se caracteriza por vermelhidão, escamação, e maior sensibilidade no local. “O paciente, em geral, sente uma queimação no rosto. Quando se expõe ao sol, essa queimação fica mais intensa. Ela se espalha por onde há mais glândulas sebáceas, como na região das sobrancelhas, sulco nasogeniano (entre lábios e nariz), barba, e área dos cílios”, explica.
Se a dermatite não for tratada, pode gerar vários desconfortos para o paciente. “Além da coceira, há o risco de inflamações no couro cabeludo, com posterior infecção secundária por bactérias devido ao próprio ato da coçadura ao abrir uma porta de entrada pra esses micro-organismos”, diz Yara. A doença pode se expandir e sair do couro cabeludo para o rosto, atrás da orelhas, colo, e costas, podendo até causar um pouco de queda de cabelo, devido a inflamação que causa ao redor do folículo piloso.
Não existe uma forma de prevenir o desenvolvimento ou reaparecimento da dermatite, afirma a dermatologista, mas uma série de cuidados podem ajudar a diminuir a reincidência de seus efeitos. O tratamento é feito com o uso de medicamentos tópicos, geralmente com corticoides, podendo ou não ser associados a antifúngicos. Há também xampus e sabonetes adequados para o tratamento, variando conforme a localização das lesões e da intensidade.
“Lembrar sempre de lavar o couro cabeludo com frequência, evitar deixar restos de condicionador ou cremes no cabelo, não dormir com o cabelo molhado, e não prender o cabelo nesse estado, porque são coisas que podem piorar a situação”, ressalta Yara. Ela ressalta que algumas iniciativas também podem ajudar na diminuição dos sintomas, como evitar tomar banhos quentes; enxugar-se bem antes de se vestir; usar roupas que não retenham tanto suor; controlar o estresse físico, emocional e ansiedade; retirar completamente o xampu e o condicionador dos cabelos quando for lavar, e evitar o uso de bonés com frequência.
Os xampus são os itens mais procurados para o tratamento, e variam conforme o nível das lesões. “Aqueles xampus anticaspa que a gente compra no supermercado, por exemplo, podem sim ajudar no controle da dermatite, nos casos mais leves. Os casos mais graves precisam de xampus com componentes antifúngicos mais específicos, sendo só encontrados em farmácias. Mas nos casos leves o xampu anticaspa comum funciona no controle da oleosidade e diminuição da dermatite”, diz.
Os tratamentos reforçam que a dermatite seborréica não está ligada propriamente à falta de asseio do indivíduo, ou algo do gênero. “Muita gente se equivoca com isso, mas a doença não tem relação nenhuma com falta de higiene, sujeira, maus cuidados. É uma condição genética que pode ser agravada por fatores como estresses emocionais, fadiga física, além do tabagismo, consumo de álcool, entre outros. Não tem a ver com sujeira e falta de cuidados corporais”, completa.
Aceitando a pele
O ilustrador Aureliano Medeiros tinha 15 anos quando começou a perceber as caspas caindo insistentemente nos seus ombros. As lesões, em seu ápice, chegavam até o rosto. Durante 10 anos, ele passou por vários médicos e dermatologistas, sem muito sucesso. Demorou até vir a percepção de que o problema não teria a cura definitiva que ele queria.
“Foi quando aceitei isso que comecei a lidar melhor com a doença. A sensação de entender o que estava acontecendo com a minha pele. Infelizmente, a gente não está acostumado a pensar a pele como um órgão, e na real ele é o maior do nosso corpo”, diz.
Aureliano passou a entender os “gatilhos” de sua dermatite, que estão relacionados ao calor, umidade, estresse, e alimentação. Ele precisou adaptar o orçamento e o estilo de vida à doença. “Além dos medicamentos e produtos específicos, que não são nada baratos, agora penso duas vezes antes de comer algo muito gorduroso ou apimentado”, diz. Ele conta que teve Síndrome de Burnout (esgotamento profissional) no último emprego, e a crise da pele veio forte. Quando pediu demissão, os sintomas foram diminuindo.
O principal para o ilustrador foi vencer a vergonha que a doença costumava lhe causar. “Eu me sentia sujo, sendo que sempre fui um cara muito asseado, cuidadoso com a higiene”, conta. Agora, ele sabe conviver bem com os sintomas, que às vezes passam semanas sem aparecer. O ilustrador acredita que o entendimento pessoal sobre a doença ensina a lidar bem com ela e ter uma vida normal. “Só fui obrigado a abolir as roupas pretas do meu guarda-roupa, por motivos óbvios, né?”, brinca.

Correio do Agreste