O novo diretor da Fundação José Augusto (FJA), Crispiniano Neto, afirmou que as medidas de contenção de gastos implementadas até agora pela gestão da governadora Fátima Bezerra vão dificultar a gestão do setor cultural no Rio Grande do Norte. “Está proibido o patrocínio de entretenimento e atividades culturais. Isso significa que a Fundação foi atingida no coração, pois esta é a nossa atividade-fim”, destacou, em entrevista ao programa Agora em Debate, apresentado pelo jornalista Roberto Guedes na Agora FM (97,9).
Assinado por Fátima Bezerra e integrante do conjunto de medidas do chamado Plano de Recuperação Fiscal do Estado, o Decreto Estadual n° 28.693, de 2 de janeiro de 2019, proíbe expansão de despesas com “patrocínio e apoio à realização de festividades, eventos culturais, solenidades, recepções, confraternizações, homenagens, enfeites, presentes e outras situações similares”. O decreto vai na esteira do reconhecimento, pela nova gestão, da situação de calamidade financeira no Governo do Estado.
Crispiniano, que ocupa pela 3ª vez o cargo de diretor da FJA, disse que vai tentar sensibilizar a governadora para que mais recursos sejam liberados para a cultura. “A Fundação José Augusto não poder fazer atividades culturais é como dizer que hospital não pode fazer cirurgia, que a Polícia Militar não tem dinheiro para prender bandido”, reclamou.
Segundo o novo diretor, a FJA foi “sucateada” na gestão do ex-governador Robinson Faria (2015-2018). Ele reclamou do déficit de servidores no órgão – são apenas 213, segundo ele – e a dificuldade para se fazer reposição de funcionários que se aposentaram. “Não temos a mínima condição de pensar em concurso, pois o Estado está catando moedas para pagar salários atrasados”.
Apesar de solicitar mais recursos para a sua área, Crispiniano Neto disse se solidarizar com a crise financeira do governo. Ele apontou, inclusive, que o déficit fiscal do Estado – avaliado em R$ 4,5 bilhões pela equipe econômica – deve ser ainda maior, já que novas dívidas têm sido encontradas em diversos setores.
Na cultura, Crispiniano exemplificou que há dívidas de quase R$ 200 mil das gestões dos teatros Alberto Maranhão e Lauro Monte Filho, em Natal e Mossoró, com as respectivas prefeituras. Os débitos seriam relativos ao Imposto sobre Serviços (ISS), cobrado pelos municípios.
OBRAS
A despeito da crise financeira, o diretor da FJA anunciou a continuidade das obras de restauração de quatro prédios históricos: o Teatro Alberto Maranhão e sua Escola de Dança, a Fortaleza dos Reis Magos e a Pinacoteca do Estado.
Nessas construções, Crispiniano disse que quer evitar o que, em sua opinião, ocorreu durante o governo Robinson: a entrega de obras inacabadas. Segundo ele, a inauguração da Biblioteca Câmara Cascudo se deu “no apagar das luzes”. “Falta a subestação de energia, sem a qual não funcionam os computadores e aparelhos de ar condicionado. Vamos precisar de cinco a seis meses de trabalho, de resgate de verbas, para por a biblioteca em funcionamento”, assinalou.
Crispiniano declarou também que o Teatro Lauro Monte Filho, em Mossoró, foi reaberto com uma estrutura aquém do esperado. “As poltronas deveriam ser reclináveis e confortáveis, mas o que colocaram lá foram cadeiras longarinas. Aquilo não é cadeira de teatro. Além do mais, o piso é ‘declinado’ e a cadeira acompanha a declividade. A pessoa tem que estar se segurando com os pés, como um cavalo de desenho animado. Isso tira a atenção, a concentração”, emendou.
Para evitar que isso aconteça, o diretor da FJA prometeu criar um comitê de acompanhamento externo das obras na área cultural. “Vamos formar uma comissão com dez pessoas ligadas aos interesses diretos [da obra]. Acompanhar, por exemplo, se a cerâmica aplicada é a que consta no projeto ou se a luz da maquinaria está de acordo”, finalizou, acrescentando que a primeira comissão será instalada para acompanhar a restauração da Fortaleza dos Reis Magos.

Correio do Agreste