“Poder respirar, encher o pulmão de ar e soltar”. É assim que Bruno Fagundes consegue traduzir em palavras seu atual momento. Aos 33 anos, o ator decidiu tornar pública a sua sexualidade, ao compartilhar nas redes sociais o namoro com o também ator Igor Fernandez, que conheceu nos bastidores da novela “Cara e Coragem”.
“De uns tempos pra cá, comecei a entender que era importante me pronunciar mais a respeito. Me frustra saber que isso ainda é assunto. A vida de cada um é totalmente individual e todo mundo tem o direito de ser o que é, e ser respeitado por isso. Esperava que fosse ter essa comoção toda, porque estou em uma indústria que alimenta essa estrutura, até de forma inconsciente”, conta.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_e84042ef78cb4708aeebdf1c68c6cbd6/internal_photos/bs/2023/z/Y/yBHyKBRz29lwpnISIxFg/bruno-fagundes-1-.jpg)
Em entrevista ao gshow, Bruno Fagundes relembra casos de homofobia, relação com a família e o namoro com Igor Fernandez — Foto: Anthony Pomes/Divulgação
Ao se descobrir um homem gay, Bruno se viu aos 15 anos buscando seu lugar no mundo. De lá pra cá, ele foi se desconstruindo e aprendendo a sobreviver. Sobrevivência e posicionamento, para ele, cada vez mais necessários.
"Já pensava em abrir mais da minha vida pessoal há muito tempo. Não fiz isso por diversas outras razões. E isso já estava resolvido há muitos anos com a minha família, desde quando eu tinha 15 anos e não era uma questão. Nunca vivi uma vida dupla, mas tive minhas lutas internas. No olhar público, eu mantinha uma certa privacidade, porque acho que é um direito importante", defende.
Dos tempos em que Bruno ainda restringia sua orientação sexual ao ambiente particular, o reflexo acontecia em suas relações de trabalho. Muitas vezes, segundo ele, era um assunto considerado proibido.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_e84042ef78cb4708aeebdf1c68c6cbd6/internal_photos/bs/2023/4/W/PAI11MR2CpaGnjV4eSdA/bruno-fagundes-conta-que-se-entende-enquanto-homem-gay-desde-os-15-anos.jpg)
Bruno Fagundes conta que se entende enquanto homem gay desde os 15 anos — Foto: Anthony Pomes/Divulgação
“No início da minha carreira, nos anos 2000, era terminante proibido falar sobre a minha sexualidade. E isso acontecia mediante violências diárias. Ouvia coisas sobre o meu jeito de falar, o tom da minha voz, a minha postura e a minha virilidade. E não sei se as pessoas no geral têm noção do quanto isso vai te anulando. Ouvi a minha vida inteira: ‘Mas você desmunheca, como vai trabalhar?’", relembra.
"Tenho muita honra e muito contato com minha feminilidade. Sou um cara mais doce e sensível. Sempre sofri retaliações e fui diminuído por isso."
Relação com a família
Filho da atriz Mara Carvalho e do ator Antonio Fagundes, Bruno conta que o apoio incondicional da família foi parte fundamental para o seu entendimento.
"Tenho um pai e uma mãe que são aliados, com plena consciência de que isso é uma exceção. Com a maturidade e com a segurança profissional que adquiri, comecei a perceber que a minha história poderia virar uma inspiração. Não só para pessoas como eu, mas para os pais dessas pessoas. Porque os pais ideais respeitam e amam seus filhos. E isso pode, e é positivo, para outras existências que não só a minha."
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_e84042ef78cb4708aeebdf1c68c6cbd6/internal_photos/bs/2023/N/B/4xZcxWRdKnNpTSGJhnRA/bruno-e-antonio-fagundes.jpg)
Bruno e Antonio Fagundes: pai e filho dividem o ofício de ator — Foto: Reprodução/Instagram
Herança de galã
Do exemplo do pai, Bruno conta ainda que precisou romper com expectativas que foram criadas para que ele assumisse o posto de galã.
"Sou filho de um dos maiores atores do Brasil. Por acaso, na época que o meu pai fez o maior sucesso da vida dele, ele virou a representação do homem heteronormativo. Durante muitos anos foi colocado sobre os meus ombros uma expectativa cansativa de ser a sucessão do meu pai, da imagem dele. Isso não só é uma injustiça com a carreira dele, como é uma injustiça com a minha carreira e com a minha individualidade."
E completa: "Isso me oprimiu durante muito tempo e me colocou nesse lugar de, hoje, romper essa expectativa. De certa forma, frustrei algumas pessoas e não tenho responsabilidade sobre isso, não é um problema meu. Estou vivendo a minha verdade, que há muitos anos é a minha natureza. Não é uma questão de escolha, antes fosse. Acho interessante não estar em uma caixa que as pessoas sempre tentaram me colocar, porque não pertenço a ela."
Preconceito e homofobia
Entre alguns episódios que sofreu ao longo de sua trajetória, Bruno relembra um em específico: quando foi agredido quando estava com uns amigos na Avenida Paulista, em São Paulo.
"Só uma pessoa que foi atacada na rua sabe o que é isso. Estava andando e, simplesmente por existir, fui agredido. Me lembro que quando aconteceu, uma semana antes, uma menina tinha morrido, porque ela estava com a namorada na rua. De certa forma, essa violência era normatizada, como tantas outras."
E, segundo ele, algumas outras situações de preconceito, só que de forma velada, também estiveram presentes.
"Já passei por muitas situações de homofobia, sobretudo as veladas. Por muito tempo acreditei que a minha existência só era viável perante a violência. E isso quer dizer que sobrevivi por ter chegado até aqui, porque fui desviando o tempo todo dessas situações. E isso, claro, me fortaleceu, mas me machucou muito. Tudo isso causou algumas falhas no meu sistema, que eu ainda estou me recuperando."
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_e84042ef78cb4708aeebdf1c68c6cbd6/internal_photos/bs/2023/M/9/wWWUVJSwilHW5JAAhBPg/bruno-fagundes-sobre-ser-gay-estou-vivendo-a-minha-verdade-que-ha-muitos-anos-e-a-minha-natureza.jpg)
Bruno Fagundes sobre ser gay: 'Estou vivendo a minha verdade, que há muitos anos é a minha natureza' — Foto: Anthony Pomes/Divulgação
O despertar do amor
Sobre o namoro com Igor, Bruno economiza nas palavras, mas transparece felicidade e realização.
"A gente se adora, é muito amigo e está tudo certo. Nosso relacionamento nasceu da troca mais sincera e pura, da vontade de estar junto. Fiz muito amigos na novela e ele foi um dos primeiros. Quando a gente viu, tinha uma coisa diferente. Mas foi muito simples e fácil."
Trabalho que segue
Com o fim de "Cara e Coragem", Bruno não se deu ao luxo de descansar. Depois de comemorar o sucesso do personagem Renan, com uma trama densa sobre relacionamento abusivo, o ator embarca em uma nova empreitada: produzir e protagonizar a peça "A Herança", que estreia em março, no Teatro Vivo, em São Paulo.
"Sou um espectador voraz de teatro, porque frequento desde os 4 anos por influência dos meus pais. E adoro pesquisar textos. Com essa peça, tive uma certeza férrea de que foi um chamado: ela fala sobre existência LGBTQIAP+, como um recorte da comunidade, mas mais voltada ao homem gay. Acredito que um bom texto de teatro tem que entreter, divertir e, se puder, emocionar e fazer refletir, trazendo questões atuais, é perfeito. E essa peça me trouxe tudo isso. A temática LGBTQIAP+ precisa ser naturalizada cada vez mais e isso me motivou a fazê-la".

Comentários: