Entre as calçadas e viadutos da cidade de Natal, uma realidade se apresenta com crueldade: diversas pessoas tendo que sobreviver sem ter um teto para se abrigar. São 1.491 pessoas em situação de rua na capital potiguar, de acordo com o 1º Censo da População em Situação de Rua, organizado pela Secretaria de Estado do Trabalho, da Habitação e da Assistência Social (Sethas). Entretanto, os serviços de assistência disponíveis para essa população parecem ser insuficientes.
Censo da População em Situação de Rua cadastrou 1,4 mil pessoas em Natal
Isso porque o município conta com três unidades voltadas para o atendimento desse público alvo, que no total, tem a capacidade de atender 220 pessoas, o que representa somente 14,76% da população total em situação de rua cadastrada na capital potiguar. Atualmente, as três unidades de atendimento são as seguintes: o Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro Pop), que oferece oferece orientação jurídica, psicossocial e garantia de direitos, no período de segunda a sexta, das 8h às 17h e com direito a café da manhã, almoço e lanche; o Albergue Noturno, que oferta serviço de albergagem noturna, serviços de pernoite, alimentação e abrigamento para pessoas em situação de rua com uma equipe multidisciplinar, além de dar direito ao jantar e café da manhã; e a Unidade de Acolhimento para Adultos e Famílias em Situação de Rua na modalidade 24h, que disponibiliza material para o autocuidado, dormitório e quatro refeições diárias, além de lanche no final da noite. Atende homens e mulheres entre 18 e 59 anos, além de suas famílias, quando necessário.
"De assistência fixa, temos esses três (serviços), o que é insuficiente. Insuficiente para Natal, o que dirá para a Região Metropolitana", afirma Jarina Araújo, defensora pública titular da 16ª Defensoria Criminal de Natal e Coordenadora Substituta do Núcleo de Defesa de Grupos Sociais Vulneráveis (Nudev). Trabalhando em prol do auxílio a essas pessoas em vulnerabilidade, a defensora destaca a necessidade de ampliação de serviços para que a situação atual seja superada.
Outra ação municipal que busca auxiliar as pessoas em situação de rua é o Aluguel Social. O programa foi sancionado pela prefeitura em setembro de 2021, como um beneficio para famílias em situação de vulnerabilidade disponibilizando um valor de R$ 600 reais. Jarina Araújo explica que esse benefício é dado por um período de seis meses, prorrogável por mais seis. Entretanto, ela vê a ação como mais uma que "não se mostra suficiente pela forma como é prevista".
"Não é um tempo hábil para a superação dessa situação (de rua). Ainda que trabalhemos com ele, o mesmo se mostra insuficiente considerando que muitas vezes o poder público não consegue dar uma contra-prestação para auxiliar a pessoa a superar a situação de rua", indicou a defensora pública, que indicou como a ausência de ações de incentivo para que os beneficiados pelo auxilio possam superar sua situação atual faz com que muitos voltem para as ruas mais tarde: "no inicio do ano a primeira leva de alugueis sociais foi finalizada, e a grande maioria dessas pessoas não conseguiu superar a sua situação de rua".
Dificuldades
Esse é o caso de Lúcia Ferreira, 50 anos, que era uma pessoa em situação de rua até começar a receber o Aluguel Social. Em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, ela informou que antes de receber o benefício, morava embaixo do Viaduto do Baldo, na Cidade Alta. O valor disponibilizado permitiu a ela que pudesse sair da situação de rua, entretanto, por pouco tempo.
Isso porque o último mês que Lúcia recebeu o benefício foi janeiro, e a falta de dinheiro faz com que ela esteja prestes a ser expulsa de sua residência atual. "Estou sem condições de pagar. Já tem três meses de atraso, vai fazer outro agora no dia 10, e o rapaz já está pedindo a casa", disse a natalense, muito emocionada. Ela não teve o benefício renovado para o restante do ano. "Eu vou voltar para o Baldo, porque não tenho condições (de manter o aluguel). Meu filho me ajudava catando material para reciclagem, mas ele faleceu recentemente", apontou.
Campanha dá acesso a documentos
Um ponto importante para que essas pessoas possam exercer de maneira plena sua cidadania e superar a situação de rua é o pleno acesso à documentação civil. De acordo com Jarina Araújo, um dos principais trabalhos feitos pela Defensoria Pública com esse público-alvo é o de registrar de maneira tardia aqueles que nunca foram registrados ou perderam seus documentos. O apontamento da defensora foi feita durante uma ação ocorrida na última segunda-feira (8), onde pessoas em situação de vulnerabilidade social e que não possuem documentos civis básicos como registros de nascimento, carteira de identidade e CPF puderam realizar a expedição gratuita na Praça André de Albuquerque, Cidade Alta, em Natal.
Mutirão para dar acesso à documentação civil acontecerá até sexta-feira, dia 12
Promovida pela Corregedoria Geral de Justiça do Tribunal de Justiça do Estado (TJRN), a iniciativa faz parte da campanha “Registre-se”, e tem o objetivo de ampliar o acesso à documentação civil básica, acontecendo até o dia 12 de maio dentro da Semana Nacional do Registro Civil. Segundo o TJRN, a expectativa é atender 350 pessoas durante a semana, com média de 85 atendimentos entre esta segunda (8) e a quinta-feira (11), das 9h às 13h.
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Cenário estadual
Informações disponibilizadas pelo 1º Censo da População em Situação de Rua organizado pela Sethas indicam que como um todo, temos 2.202 pessoas em situação de rua no estado do Rio Grande do Norte. Elas estão espalhadas em 49 municípios potiguares, com destaque para Natal (1.491 pessoas), Parnamirim (103 pessoas), Mossoró (70 pessoas), Extremoz (68 pessoas) e São José de Mipibu (48 pessoas).
Os dados indicam que uma quantidade maior de pessoas se depararam com essa situação após o inicio da pandemia de Covid-19, por motivos que envolvem a perda de trabalho e moradia. Dessa forma, é possível compreender que o contexto sanitário estadual desencadeou diferentes trajetórias entre pessoas em situação de rua no Rio Grande do Norte.
Sobre o perfil dessas pessoas, temos os seguintes dados: em relação ao gênero, 74,9% são do sexo masculino, enquanto 25,1% do sexo feminino; já sobre a idade, 25,8% tem entre 36-45 anos, 22,6% tem entre 26-35 anos, 21% tem entre 46-59 anos, e 10,4% tem entre 18-25 anos.
FONTE/CRÉDITOS: Tribuna do Norte
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